CARONAS EM
DIAS DE FESTA DE N. SENHORA DO ROSÁRIO
Morávamos em
repúblicas diferentes naquela época, embora sempre estivéssemos juntas.
Tínhamos um laço mais que de primas, éramos grandes e inseparáveis amigas. E
muita cumplicidade havia entre nós. Eu cursava o primeiro ano de medicina numa
universidade federal e ela estudava psicologia numa faculdade particular. Era
chegado outubro, o mês da festa do Rosário na minha terra natal, uma pequena
cidade, também localizada na zona da mata mineira. O acesso viário era muito
difícil, além de estar a quase 200 km de onde estudávamos, as estradas eram de
terra, precárias e não havia linhas de ônibus para lá. Mesmo que houvesse tais
transportes, não seria possível viajar neles uma vez que não tínhamos dinheiro.
Entretanto, quanto maiores as dificuldades, maior era nossa vontade de ir
àquela festa tão esperada pelo gentio de lá e pelo gentio ausente. Lucinha nem
dormiu na semana anterior à nossa viagem. Decidimos ir de carona. Havíamos
combinado tudo. Eu já era mestre em pedir caronas, sabia kilometragens entre as
cidades, quais carros fariam os percursos mais rápidos, quais entroncamentos
seriam mais fáceis para a próxima carona, quais assuntos abordar e por ai
afora. Minha prima ficava admirada da minha sabedoria e só ficava ao lado,
atenta a tudo.
Bem, naquele
ano a festa era especial não só para mim. O dia da padroeira, 7 de outubro,
cairia no domingo e eu estava enamorada de um moço. Fiquei sabendo, não sei
como, que ele estaria no ônibus alugado pelos conterrâneos que moravam em Santo
Amaro. Eu o achava muito bonito e inteligente. “Um bom partido”, como era costume
dizer.
Mochilas nas
costas, pão com manteiga e alguns trocados para o retorno até as repúblicas
considerando que voltaríamos de carona até bem perto. Lá vamos nós nas primeiras
horas da manhã de um sábado. Lucinha, uma menina criada para ser princesa,
ficava rindo de nervoso e eu tomava as rédeas de nossa aventura. Decidi que
pegaríamos o trevo novo em direção a Ubá, bem distante do centro da cidade. Ali
passavam mais carros naquela nossa direção. Dito e feito e logo já estávamos
dentro de um confortável veículo automotor. Os motoristas admiravam o fato de
sermos universitárias e acabavam sendo simpáticos, às vezes ofereciam um café
ou, até mesmo nos levavam a pontos estratégicos para as próximas caronas.
Afinal a cidade era longe e, quando mais afastávamos da grande cidade, mais
escassas ficariam nossos prováveis benfeitores. O sol já ia alto e ainda não
tínhamos percorrido nem a metade. A fome dava no estômago. Alguns motoristas
nos deixavam no meio do nada. Continuávamos andando a pé, procurando frutas,
bicas d’água, uma venda e os olhos sempre fixos na estrada. “De vez em quando
minha prima me lançava um olhar e perguntava:” tá longe ainda?” Eu, dona de
mim, continuava na habitual
tranquilidade de especialista em geografia e em caronas.
A festa na minha
cidade já devia ter começado naquela manhã. Eu adorava ver a dança dos
congadeiros e ouvir aquele ritmo que retumbava no coração. Certamente N Senhora
do Rosário não iria faltar conosco. Eu não parava de andar. Já havíamos passado
por Tabuleiro do Pomba e por Rio Pomba . Ubá estava próximo. Logo estaríamos na
estrada de terra. O asfalto ficaria para trás.
Faltavam
ainda 70 quilômetros. Estávamos chegando próximo a um trecho de serra, um
pedaço da Mantiqueira. De um lado o barranco e, do outro, despenhadeiros. Eu
olhava aquele nosso próximo desafio. Nenhum carro aparecia. Ainda estávamos
numa baixada quando, de repente, aparecem na nossa frente abelhas africanas
enxameantes. Eu tinha certeza que eram africanas. O zumbido ensurdecedor e a
nuvem negra dominava toda largura da estrada. Nas margens, apenas árvores e
cercas. E agora? Então apelei a Nossa Senhora do Rosário, dona da festa e minha
xará. Voltamos correndo no sentido contrário da nossa viagem, desesperadas. Eis
que, por milagre da minha apelação, surge lá um fusquinha branco todo
empoeirado. Nós duas pulamos na frente do tal veículo e pedimos socorro. A
mulher do moço fez cara de pouca conversa. Só queríamos atravessar aquele
perigo. Esqueci-me de dizer que eu
já era alérgica a picadas de inseto. Nem me fale de uma abelha africana. Ao
atravessar aqueles temíveis insetos, eram abelhas pra todo lado do carro. Passados
o susto e a cara feia da mulher do homem, descemos do carro junto com nosso
estômago que agora já devorava o delgado. Ainda faltavam duas cidadezinhas,
Divinésia e Senador Firmino antes do nosso destino. Apenas 40 km. Carro de boi,
cavalo, charrete, agora pegaria qualquer trem que andasse naquela direção.
Enfim chegamos
em Brás Pires. Pedi minha tia e madrinha que nos acolhesse na casa paroquial.
Ali ela ditava todas as ordens dos preparativos para receber os padres e vários
políticos importantes, onde os primeiros enriqueceriam as cerimônias religiosas
e os segundos traziam prestígio. Eram aguardados mais de quarenta convidados
para as refeições e alguns, os mais importantes, também hospedavam ali. Havia
muitas cozinheiras e arrumadeiras, devotas de nossa senhora que faziam aquilo
em fervor e um cantinho garantido no céu. Meu Tio era o Padre anfitrião daquela
grande festa. Acomodadas num dos quartos nos fundos da casa, matamos a fome com
muita quitanda e café e nos colocamos à disposição da minha tia para algum
serviço. Então saímos para a rua. Era nas ruas que tudo acontecia. Era preciso
não descuidar dos arranjos para as caronas da volta. Eu preocupava e me ocupava
com tudo.
Muitas
pessoas andavam nas poucas ruas e se apinhavam na praça da minha cidade. As
pessoas rezavam e entoavam hinos religiosos numa demonstração de fé. As cores
fortes vestiam as rainhas e suas princesas nas procissões, reinados e
coroações. O som e as danças da Guarda do Congo eram o que eu mais gostava.
Imaginava aquele país tão distante coroando seus reis e suas rainhas negras em
meio aos batuques dos tambores.
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| Quase nunca |
Mas tinha
também o moço que tanto eu queria ver. Onde ele estaria? Se eu era sábia para
as viagens, minha prima era pura esperteza nos namoros. Lá estava ela já em
prosa com um rapaz e me trazendo notícia do Bento. “Ele veio sim e está na casa
do tio dele”. Meu coração acelerou e pude sentir meu rosto quente.
A noite
chegou trazendo mais encontros das pessoas que continuavam chegando de cidades
próximas ou até mesmo retardatários de São Paulo e Rio de janeiro. E pequena
não fora aquela noite para tantas outras festas, outras ritmos musicais e
muitos namoros. Havia jovens para tudo quanto era gosto. Ríamos, cantávamos e
rezávamos também. Nada estragaria aqueles encontros. Os amores estavam no ar e
abençoados por Nossa Senhora. A noite já ia alto e logo começariam a chegar os
homens para a adoração do Santíssimo.
E a
madrugada chegara muito depressa. Decidimos esperar a alvorada, quando a banca
local com seus músicos geniais, entoavam hinos e louvores a N. Senhora na praça
da matriz.
Aos poucos
eles iam chegando e se colocavam em frente à casa paroquial. Começado o som
metálico daquela banda da minha cidade, os lá de dentro abriam as janelas para
a saudação. Jamais esquecerei aquelas cenas. Todos os integrantes daquela
corporação musical eram conhecidos. Meu pai sempre foi um deles e desfilava
garbosamente para orgulho dele e de todos nós.
Findada a
alvorada era hora de voltarmos para nossas acomodações. Chamei minha prima e,
sorrateiramente, entramos na casa do Padre. O café logo seria servido. O sol
acabara de nascer. Era necessário sermos bem discretas, se possível nem sermos
vistas. Afinal ali era uma casa santa onde também estavam meus pais. E minha
tia que não era nada fácil.
Subimos a
escadaria de madeira, pé ante pé e, logo na grande sala do café, encontramos
minha Tia com sua calmaria e um sorriso.
Tomei-lhe a
benção e ela nos disse: “vocês levantaram cedo. Tomem o café e vão para a cozinha.
Tem lá um saco de batatas para vocês descascarem e picarem prá maionese do
almoço”. E foi para lá que nos
dirigimos.
Betim 26 de
fevereiro de 2014

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